segunda-feira, 27 de junho de 2011

Carmélia

Mil abelhas velhas picam meus joelhos.
E ajoelhada, eu rezo, para meus amores
voltarem com o seu mel.

E talvez eu durma um pouco,
ao som das velhas do Roberto.
Só músicas de saudade no rádio.

Espero.
E só espero.
Até não lembrar mais.

Os meus amores não vem.
As abelhas ainda voam.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Plástico Bolha

E não sei se passou de verdade ou se minha memória me prega peças. Só sei que tudo que eu sei começou no dia em que vi você de vestido florido, batom borrado na boca e sapatos maiores que os pés. Parecia tudo meio mágico. E eu só escutava os plec, plac, das bolhas se estourando nos meus dedos. Sussurrou algo para minha mãe e saiu como veio. E acho que Mamãe não te escutou, estava preocupada demais com a geladeira nova na cozinha. Nem eu te escutei ou te dei atenção. Só buscava à ultima bolha daquele cobertor de plástico sobre as minhas pernas.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Amor

-Miminha, os ratos te deixam dormir a noite?
-De que ratos fala? Não tem rato nenhum aqui em casa.
-Os ratos no quarto da mamãe! Eles batem na cama e na parede, mordem ela, mamãe geme de dor. Não consigo dormir com tanto barulho!
-Não, Dudu, seu bobo! Aquilo no quarto da mamãe não é rato. Aquilo é amor.
-Amor?
-Sim, amor!
-Então porque o amor vai embora quando papai volta?

sábado, 14 de maio de 2011

João amava Teresa

Mas amava também amélia, daniela, maria, alice, raissa, manoela, giovana e tantas outras. Tereza sabia dividir o amor de João. E ao se juntar na quadrilha, dançava com todos, não era de João, jamais seria de alguém. E também na quadrilha, João se enciumava por Tereza não ser sua, ou não tanto quanto gostaria que fosse como todas as outras eram. As palavras que Drummond um dia disse, Tereza as sentia na pele, João partiu para terras distantes, e as tantas outras foram para o convento, morreram de desastre, casaram-se. Só ela, Tereza, que escapara do fim fatídico que a literatura lhe destinava. Então desejou ter pelo menos ter uma vida com final de filme.

domingo, 1 de maio de 2011

E como um anjo pendeu

Um mundo de gente iria olhar para mim com pena e querer me abraçar e beijar e tocar em mim com mais pena ainda. Só queria ficar quieta e encolhida, chorar e gritar exatamente como fiz no chuveiro, esmurrando os azulejos e dobrando o corpo sem força como se ele fosse escorrer pelo ralo. Parecia possível possível escorrer tudo de mim e ao olhar dentro só havia aquilo, aquela dor, aquela queda infinita e continua para dentro de mim, sem gravidade, sem nada, só aquele vácuo sufocante. Minha dor transbordava em meus olhos vermelhos de choro e sono. Meus olhos vermelhos procurando por pelo menos um pedaço do que poderia ser eu. Mas já havia me perdido na queda.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Os pés tortos de Deus

Andava de óculos, circulava pelo mundo. Meus joelhos deram nós. A terra descamava tudo que ainda tinha para me cobrir. Olhos me seguiam hora à hora. Era gramado, asfalto, barro. Eram todos os caminhos e todos os olhos. E eu me preocupava em ver aquele reflexo em ângulo obtuso, um fio de cabelo no meio da comida, os borrões de todos os movimentos à minha volta. Nada tão grande, nada tão novo. E as vezes perguntava a Deus se ele me escutava. Mas perguntar a Deus é apenas uma retórica. Vou imaginando filmes, livros, fotos, músicas que eu gostaria de ter feito e não vou fazer. Não por ser medíocre. Olhar o mundo já ocupava tempo demais. E eu me deixava passar. E me passando pela vida, ceguei. Deus comeu os meus olhos e vomitou a magoa do mundo.

domingo, 27 de março de 2011

Céu

Cortei as asas
Escolhi não voar
Sou cor, sabor e textura
Só caminho sob as estrelas.